 O
Rio Grande do Sul está entre os Estados com maior probabilidade
de ocorrência de desastres ambientais. Apesar de alguns terem origem
natural, pode ser prevista sua ocorrência, porém muitas construções
continuam sendo erguidas em áreas de risco.
Este foi um dos assuntos
abordados no dia 30 de julho, pela manhã, em uma das salas da Fundação
Getúlio Vargas, em Porto Alegre, no Ciclo de debates Repensando
o Desenvolvimento frente às Fragilidades Ambientais. O evento é
uma promoção da Associação Brasileira de Engenharia
Sanitária Ambiental - Seção Rio Grande do Sul (ABES-RS)
e conta com apoio da Associação Profissional dos Engenheiros
Químicos do Estado do Rio Grande do Sul (APEQ-RS).
Até a década
de 70, acreditava-se que os desastres ambientais eram castigos divinos,
uma revolta de Deus. Essa mentalidade começou a mudar com um terremoto
ocorrido em 1976 na Guatemala. Depois disso, governos e sociedade começaram
a estudar para estarem preparados para enfrentar esses fenômenos.
Atualmente, já é possível a identificação
de locais mais vulneráveis a esses eventos.
Hoje se pode atuar na redução
de riscos, informa Dulce Fátima Cerutti, consultora técnica
da Secretaria de Vigilância de Saúde do Ministério
da Saúde, na área da Vigilância em Saúde Ambiental
dos Riscos Decorrentes dos Desastres Naturais.
Ela lembra que nem todas
as áreas são apropriadas à construção
civil. Conta que, no Peru, um hospital foi destruído 14 vezes antes
mesmo de ser inaugurado, pois ficava em uma área de risco. Mesmo
assim, serviços básicos continuam sendo construídos
em locais suscetíveis. Para se ter uma idéia, 50% dos hospitais
na América Latina ficam em áreas de risco. Em uma enchente
em Pernambuco, em 2005, 103 unidades de saúde foram danificadas,
sendo que quatro delas foram totalmente destruídas. Em Santa Catarina,
no início deste ano, o grande volume de chuvas provocou estragos
em oito unidades de saúde e destruiu três estações
de tratamento de água.
Dulce salienta que os desastres
ambientais trazem seqüelas por muito tempo: 20% das pessoas que têm
esse tipo de experiência ficam com problemas psicossociais temporários
e 5% delas, com problemas permanentes. O resultado de tudo isso, é
claro, é um grande impacto social: mais pobreza, desemprego e aumento
das dívidas, externa e interna.
Além disso, nem sempre
os municípios notificam os acontecimentos como desastres, sendo
que, muitas vezes, o próprio município contribui para o
agravamento dos riscos, como salienta Dulce, que é especialista
Vigilância em Saúde pela Universidade de Brasília.
Mas se em muitos casos o
problema pode ser pensado antes de acontecer, há a necessidade
de que os governos invistam mais na prevenção. Apesar de
haver avanços - hoje o Ministério da Saúde vem atuando
junto ao MMA - Ministério do Meio Ambiente, para tratar dessas
questões - 80% do quadro do Ministério da Saúde hoje
é formado por consultores, e há 25 anos não realiza
um concurso público para cobrir as deficiências nessa área.
Passivos ambientais
A engenheira química
Carmem Níquel cita vários exemplos de passivos ambientais.
Depósitos irregulares de resíduos industriais, lixões,
áreas industriais e de prestação de serviços
são alguns deles. Também ressalta o impacto que esses danos
ocasionam, como a contaminação dos solos e das águas
subterrâneas, entre outros danos potenciais. O Rio Grande do Sul
não possui um mapeamento de suas áreas contaminadas, ao
contrário de São Paulo, onde a Companhia de Tecnologia de
Saneamento Ambiental (Cetesb) levou dez anos para realizar esse levantamento
com apoio da agência alemã, GTZ.
Ela lembra o significado
da palavra passivo: todas as obrigações das empresas com
terceiros, nesse caso, a sociedade que, mesmo sem uma cobrança,
devem ser reconhecidas como tal. As áreas contaminadas são
bombas-relógios químicas, comenta a técnica da Fundação
Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM). A engenheira alerta
que muitos bancos estão atentos para não receber propriedades
contaminadas como pagamentos de dívidas ou garantias de financiamento.
E salienta: é muito mais barato prevenir, fazendo uma gestão
adequada de resíduos e de efluentes, do que remediar a situação.
O mediador do debate, Márcio
Freitas, ex-diretor do Departamento de Qualidade Ambiental do Instituto
Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA), funcionário da Companhia Rio-Grandense
de Saneamento (CORSAN) e representante da ABES, frisa que tanto os desastres
como os passivos, muitas vezes, acontecem simultaneamente, como no caso
da enchente do Rio dos Sinos e do rompimento de uma barragem de efluentes
em Minas Gerais em 2003. Ele adverte, ainda, que muitos passivos são
de massas falidas, cujos recursos remanescentes estão comprometidos
com questões trabalhistas: as questões ambientais, nesses
casos, não são cobertas pela legislação. A
lei de falências não trata sobre esse assunto.
O encontro contou com uma
expressiva participação de estudantes, técnicos de
órgãos públicos, consultores da iniciativa privada,
integrantes de ONGs, o que provocou um acalorado debate. O objetivo é
comunicar à sociedade sobre os impactos de novos empreendimentos,
para que, enquanto cidadãos, seja utilizado o verdadeiro poder
que temos na tomada de decisão, ressalta a engenheira Nanci Begnini
Giugno, coordenadora do evento.
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