 Especialistas
em licenciamento e avaliação de impacto ambiental discutiram
o tema gestão integrada e desenvolvimento sustentável no
sétimo encontro do ciclo de debates “Repensando o desenvolvimento
frente às fragilidades ambientais”, promovido pela ABES-RS
e apoiadores, na manhã de 7 de novembro, no auditório da
Fundação Getúlio Vargas, em Porto Alegre.
A conclusão foi de
que só com ações é possível atingir
a gestão integrada e a sustentabilidade. E que, se o interesse
econômico ainda pode prevalecer diante do interesse social, pelo
menos, já há espaço para debater o assunto. E até
a possibilidade de parar determinados empreendimentos ou fazer com que
considerem a questão ambiental. Paralelamente, a mesa e a platéia
concordaram em que os meios de comunicação não têm
conseguido manter a população bem informada sobre esse e
outros temas imprescindíveis para a sobrevivência da humanidade.
Para falar sobre o tema
“Gestão integrada: estratégias de desenvolvimento
sustentável”, foram convidadas duas especialistas em licenciamento
e avaliação de impacto ambiental, com participação
em estudos complexos e em trabalhos técnicos integrados: a arquiteta
Ana Rosa Bered, técnica da Fepam, e arquiteta Moema Pereira Rocha
de Sá, gerente de Instrumentos de Avaliação de Impacto
Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA). O debatedor foi
o arquiteto Manoel Eduardo de Miranda Marcos, chefe do Departamento de
Qualidade Ambiental da Fepam, que também trabalha com questões
de licenciamento ambiental.
O poder público já
se prepara para dar respostas mais amplas diante das propostas do empreendedor:
a arquiteta Ana Rosa Bered, técnica da Fepam, trabalha não
apenas com a visão de licenciamento ambiental, mas também
de planejamento ambiental. Ela participou de trabalhos inéditos,
como o trabalho de zoneamento para a silvicultura, feito de forma inédita
na Fepam, apontando áreas com grande restrição, média
restrição e baixa restrição à silvicultura.
Esse trabalho deveria ter sido usado no licenciamento da plantação
de eucalipto no Rio Grande do Sul para a produção de celulose,
mas não foi.
A arquiteta Moema Pereira
Rocha de Sá, gerente de Instrumentos de Avaliação
de Impacto Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA), trabalha
na questão da avaliação integrada, que é um
instrumento novo, mais amplo que o licenciamento ambiental e que não
exclui o EIA-Rima (estudo de impacto ambiental que só é
aplicado após a proposta de empreendimento). A idéia é
criar um guia que abranja a fase anterior à proposta, e que tenha
interligações sociais, econômicas e ambientais.
De acordo com a coordenadora
do ciclo de debates, engenheira Nanci Begnini Giugno, a intenção
foi evocar o tema gestão integrada, que tem como um de seus estruturadores
o planejamento integrado. “Sem efetiva gestão integrada,
o conhecimento e o planejamento se perdem”, disse Nanci. Ela considera
que esse encontro resgatou o que veio sendo discutido nos anteriores e
atendeu as expectativas, abrindo com a questão da sustentabilidade
e apontando para a questão da gestão integrada, que significa
abrangência, visão de futuro, tomada de decisão.
“O
painel mostrou que só através de ações se
atinge a gestão integrada e a sustentabilidade. Esse foi o grande
debate: na hora da tomada de decisão, o que é que vale efetivamente?
Aí percebemos que as decisões são tomadas muito mais
do ponto de vista economicista do que do ponto de vista ambiental. A questão
ambiental ainda nos dias de hoje permanece de forma marginal quando da
efetiva escolha dos empreendimentos que acabam por caracterizar nosso
modelo de desenvolvimento”. |
Segundo a engenheira, ficou
evidente que, mesmo em projetos específicos, a população
tem muito mais acesso a informações que mostram os aspectos
positivos dos empreendimentos e os benefícios de curto prazo. A
visão de futuro, de médio e de longo prazo, ainda fica distante
da sociedade. Reverter essa situação é um processo
lento, que passa pela educação formal e também pela
educação informal.
Além disso, é
preciso vencer a dificuldade de lidar com as pressões impostas
por interesses imediatos e com as incertezas provocadas por crises, como
a crise econômica que vem atingindo o mundo atualmente. Mesmo assim,
Nanci tem esperança. “Acho que tem havido avanços:
já temos espaço para debater e, muitas vezes, conseguimos
estancar determinados empreendimentos, ou fazer com que efetivamente considerem
a questão ambiental.”
O engenheiro Márcio
Freitas - que dirigiu a mesa diante de 80 participantes, entre profissionais
e estudantes - disse que o encontro atendeu o objetivo de trazer
a questão da gestão ambiental para um público mais
amplo, pessoas que estão na academia ou atuam em outras áreas
e que, às vezes, não compreendem muito bem a questão.
E reforçou a questão da falta de informação
da sociedade, lamentando que os meios de comunicação não
se importem muito em informar sobre questões tão importantes
e decisivas como as que foram debatidas e que são do interesse
de todos.
“Os técnicos
que trabalham com licenciamento ambiental conhecem essa realidade, mas
nem sempre têm oportunidade de divulgá-la. Infelizmente,
a chamada grande imprensa não cobre esse tipo de evento. E essa
falta de informação dificulta o debate e a compreensão
de trabalhos técnicos destinados a viabilizar o recenseamento dos
empreendimentos propostos, pois não há condições
de igualdade entre a sociedade e o empreendedor.”
Freitas atribui a falta
de divulgação de temas importantes a uma certa ausência
de democracia nos meios de comunicação, associada à
falta de democracia na educação. “Além da deficiência
na informação, há deficiência na formação
escolar, o que não favorece a compreensão de questões
a um prazo mais longo. Assim, empreendimentos que envolvem questões
ambientais, normalmente são discutidos numa visão de curto
prazo. E, às vezes, o interesse econômico é colocado
acima do interesse social, o que se reflete a longo prazo no que chamamos
de desenvolvimento sustentável.”
O próximo encontro,
o último do ciclo, está previsto para o início de
dezembro e não terá apresentação específica,
será de avaliação do todo, com a perspectiva de preparar
um novo ciclo de palestras para 2009. |